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A filiação que ninguém fez e a narrativa que todos disputam

O registro indevido de Flávio Bolsonaro no partido Missão revela como um incidente ainda sob investigação pode ser transformado em combustível eleitoral, mobilização digital e disputa pela condição de vítima

Na política contemporânea, um fato raramente chega sozinho ao conhecimento público. Antes mesmo de ser esclarecido, ele já aparece cercado por interpretações, suspeitas, acusações e versões cuidadosamente embaladas para consumo imediato. Foi exatamente o que aconteceu com a filiação indevida do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro ao partido Missão. O registro apareceu no sistema da Justiça Eleitoral e criou um obstáculo para a formalização da candidatura de Flávio pelo PL. A filiação foi posteriormente anulada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, e o vínculo do senador com o PL foi restabelecido. O problema jurídico foi resolvido. A guerra política, não. De um lado, Flávio Bolsonaro apresentou-se como vítima de uma tentativa de sabotagem. Do outro, o Missão afirmou que também foi vítima de fraude, negou qualquer interesse em receber o senador e passou a cobrar esclarecimentos sobre as falhas que permitiram o registro. Enquanto as investigações tentam descobrir quem praticou o ato, as máquinas narrativas já escolheram os culpados. Na política digital, a apuração costuma chegar depois do veredicto. E, quando chega, encontra a praça ocupada. O fato e as versões Até o momento, o que se sabe é que Flávio Bolsonaro foi registrado sem consentimento como filiado ao Missão. O TSE informou que não houve invasão externa ao sistema e que a operação foi realizada mediante o uso indevido de credenciais vinculadas à própria legenda. Isso não significa, automaticamente, que a direção do Missão tenha ordenado ou autorizado a inclusão. Determinar a autoria e as responsabilidades é justamente o objetivo da investigação. A distinção é essencial. Uma credencial partidária pode ter sido utilizada de maneira irregular sem que isso prove a participação institucional da legenda. Da mesma forma, a declaração de que houve fraude não resolve, sozinha, as perguntas sobre quem tinha acesso, como conseguiu utilizá-lo e por que os mecanismos de segurança não impediram a alteração. O partido informou ter identificado um endereço de IP relacionado à operação e apresentou notícia-crime ao TSE. A legenda sustenta que terceiros praticaram a fraude e pede que sejam afastadas as suspeitas contra seus dirigentes. O Tribunal, por sua vez, suspendeu temporariamente o processamento de novas filiações no sistema Filia, embora continue recebendo solicitações, e determinou o aprofundamento das investigações. Também foram comunicadas ocorrências envolvendo tentativas de registros indevidos de outros nomes, entre eles o presidente Lula. Esses são os fatos disponíveis. Todo o resto ainda pertence ao território das hipóteses — ou das conveniências. A narrativa de Flávio: o candidato perseguido Para Flávio Bolsonaro e seus apoiadores, o episódio oferece uma matéria-prima política conhecida: a perseguição. A narrativa é simples, emocional e eficiente. Um candidato teria sido vítima de uma fraude destinada a impedir ou dificultar sua participação na eleição. O problema deixa de ser apenas uma inconsistência no sistema partidário e passa a ser apresentado como ataque contra o próprio direito de escolha do eleitor. Essa construção produz três efeitos. Primeiro, transforma Flávio em vítima. Segundo, reforça entre seus apoiadores a percepção de que existem forças tentando excluí-lo da disputa. Terceiro, estimula a mobilização defensiva: se “querem impedir nosso candidato”, é preciso apoiá-lo ainda mais. Não é necessário demonstrar imediatamente quem organizou a suposta sabotagem. Basta manter viva a sensação de cerco. A narrativa política trabalha muitas vezes com a emoção antes de trabalhar com a prova. O medo, a indignação e o sentimento de injustiça viajam mais depressa do que um processo de investigação. Flávio conseguiu resolver a situação jurídica e permaneceu na disputa. Narrativamente, porém, o episódio pode continuar sendo explorado como evidência de perseguição. O obstáculo desapareceu. A condição de vítima ficou. A narrativa do Missão: o pequeno partido atacado pelos poderosos O partido Missão também construiu sua própria posição no tabuleiro. A legenda afirma ter sido vítima de uma ação fraudulenta, diz que alertou sobre irregularidades e acusa o sistema eleitoral de possuir fragilidades que permitiriam a inclusão de pessoas sem a devida confirmação. Politicamente, essa narrativa também é valiosa. O Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre e comandado por adversários do bolsonarismo, ganhou uma exposição nacional que dificilmente conseguiria comprar com propaganda convencional. Seu nome passou a circular em portais, programas de televisão, vídeos, grupos de WhatsApp e publicações nas redes sociais. Para seus dirigentes e apoiadores, o episódio pode ser apresentado como uma tentativa de desmoralizar uma legenda nova que desafia tanto o bolsonarismo quanto a esquerda. Assim, temos duas vítimas diante do mesmo acontecimento. Flávio seria vítima de uma fraude destinada a retirar sua candidatura do caminho. O Missão seria vítima de uma operação destinada a associá-lo a um adversário e comprometer sua imagem. Todos foram atacados. Ninguém sabe, por enquanto, quem atacou. É uma trama perfeita para a política das redes. Quando a explicação importa menos que o engajamento O episódio mostra como funciona a construção contemporânea de narrativas eleitorais. Primeiro surge um acontecimento real. Depois, cada grupo seleciona os elementos que confirmam sua visão de mundo. Em seguida, atribui intenção aos adversários. Por fim, distribui a versão entre apoiadores como se a investigação já estivesse concluída. O objetivo não é apenas explicar o que aconteceu. É definir o que o público deve sentir. Apoiadores de Flávio devem sentir indignação diante de uma suposta tentativa de golpe contra a candidatura. Simpatizantes do Missão devem enxergar o partido como alvo de uma armação ou como denunciante das fragilidades do sistema. Adversários de ambos podem interpretar o caso como uma encenação, uma operação de marketing ou uma disputa interna da direita. Cada narrativa oferece ao eleitor um papel. Ele pode ser o defensor do candidato perseguido, o apoiador do partido injustiçado, o cidadão indignado com as falhas da Justiça Eleitoral ou o internauta que acredita ter descoberto uma conspiração escondida da maioria. Narrativas políticas não entregam apenas uma versão dos fatos. Entregam identidade, pertencimento e inimigos. A economia da atenção não desperdiça escândalos O caso também demonstra que, na política digital, até uma fraude pode funcionar como campanha gratuita. Flávio Bolsonaro reforça a conexão emocional com uma base que já se considera perseguida por instituições, adversários e parte da imprensa. O Missão sai do anonimato para o centro da disputa presidencial. Os dois lados produzem vídeos, entrevistas, cortes e acusações. O conflito alimenta o algoritmo. O algoritmo amplia o conflito. Nesse ambiente, a pergunta “quem fez?” pode ser substituída por outra, muito mais útil eleitoralmente: “qual versão mobiliza melhor o meu público?”. Não afirmo que o episódio tenha sido planejado por qualquer uma das partes. Não há, até agora, prova pública suficiente para sustentar essa acusação. Mas é possível observar o aproveitamento político posterior ao acontecimento. Uma coisa é provocar um incêndio. Outra é perceber que as chamas iluminam o palanque e decidir fazer o discurso diante delas. O eleitor não precisa escolher uma versão antes dos fatos A existência de narrativas concorrentes não significa que a verdade seja impossível ou que todas as versões tenham o mesmo valor. Significa apenas que o cidadão precisa resistir à pressão para escolher culpados antes da conclusão da investigação. Algumas perguntas continuam abertas: Quem realizou concretamente a filiação? Como obteve ou utilizou as credenciais? Houve participação de alguém ligado ao partido? O e-mail oficial do senador foi empregado e, se foi, de que maneira? Por que o sistema aceitou dados aparentemente inconsistentes? Houve outras vítimas? Quem se beneficiaria politicamente com a confusão? Enquanto essas respostas não aparecem, qualquer sentença definitiva serve mais à campanha eleitoral do que à compreensão dos fatos. A guerra de narrativas prospera justamente nesse intervalo entre o acontecimento e a explicação. É nesse vazio que entram a suspeita, a paixão partidária e a criatividade dos fabricantes de versões. A narrativa não precisa vencer a investigação — basta chegar primeiro O episódio da filiação de Flávio Bolsonaro ao Missão não é apenas uma anomalia burocrática. É uma aula prática sobre a política na era da atenção. O fato ocorreu uma vez. Suas versões serão reproduzidas milhares. Cada candidatura tentará transformar o caso em prova de algo que já desejava dizer: perseguição, sabotagem, fragilidade institucional, oportunismo, conspiração ou decadência dos adversários. No fim, talvez a investigação identifique o responsável e esclareça o método utilizado. Mas, quando isso acontecer, milhões de pessoas já terão formado uma convicção. Não com base no resultado da apuração, mas na primeira narrativa que encontrou abrigo em suas crenças. É assim que se conquista o eleitor na política digital: não necessariamente demonstrando o que aconteceu, mas convencendo-o de que o acontecimento confirma tudo aquilo em que ele já acreditava. A filiação era falsa. A disputa por seu significado é muito real.