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A profecia de Kassab: quando um político tenta decretar quem pode vencer

Ao afirmar que Flávio Bolsonaro tem “chance zero” e que o Centrão está com Lula, o candidato a vice de Ronaldo Caiado não apenas analisa a eleição: tenta reorganizar o tabuleiro e fabricar uma nova ideia de voto útil

Gilberto Kassab não é exatamente um homem conhecido por desperdiçar palavras. Muito menos por falar sem calcular onde cada frase deverá cair. 
Por isso, quando o presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado afirmou que Flávio Bolsonaro tem “chance zero” de vencer a eleição, sua declaração não deve ser lida apenas como uma análise do cenário eleitoral. 
 Kassab não estava diante de uma bola de cristal. 
Estava diante de um público. 
A frase foi pronunciada em um evento com empresários e comerciantes em São Paulo. Na mesma ocasião, Kassab afirmou que os partidos do Centrão estão, na prática, apoiando a reeleição do presidente Lula. 
As duas declarações fazem parte da mesma construção. 
De um lado, Flávio seria um candidato sem capacidade de vitória. Do outro, Lula estaria sendo favorecido pelo pragmatismo dos partidos de centro. Entre os dois apareceria Ronaldo Caiado, apresentado como a alternativa capaz de romper a polarização e derrotar o presidente. 
É uma narrativa engenhosa. 
O problema é que ela tenta vender como fotografia aquilo que também é movimento. 

Uma frase que contraria os números 


A pesquisa Quaest divulgada na véspera da declaração mostrou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 31%. Em uma eventual segunda rodada entre os dois, Lula aparecia com 43% e Flávio com 40%, em situação de empate técnico considerando a margem de erro. 
Além disso, os dois lideram o cenário eleitoral com ampla vantagem sobre os demais candidatos. 
Os números podem mudar. Flávio possui rejeição elevada, enfrenta dificuldades para ampliar alianças e ainda precisa provar que consegue conquistar eleitores para além da base herdada do pai. 
Tudo isso é verdade. 
Mas nenhuma dessas informações autoriza, matematicamente, a conclusão de que sua chance de vitória seja “zero”. 
Zero não é uma tendência. É uma impossibilidade. 
Quando um candidato aparece a poucos pontos do líder em uma simulação de segundo turno, decretar sua absoluta inviabilidade exige mais imaginação política do que ciência estatística. Kassab sabe disso. 
A frase não foi produzida para descrever as pesquisas. Foi produzida para disputar o efeito delas. 

Viabilidade também é uma narrativa 


Toda campanha presidencial precisa convencer o eleitor de duas coisas. 
A primeira é que seu candidato merece vencer. A segunda é que ele pode vencer. 
Essa segunda dimensão é decisiva porque grande parte do eleitorado não escolhe apenas por afinidade ideológica. Escolhe também pela percepção de viabilidade. Poucas pessoas gostam de investir esperança em uma candidatura tratada como derrotada antes da abertura das urnas. 
É aí que entra a declaração de Kassab. 
Ao atribuir “chance zero” a Flávio, ele tenta retirar do candidato do PL um dos seus principais ativos: a condição de adversário competitivo de Lula. 
Não basta dizer que Flávio é ruim. É preciso dizer que votar nele será inútil. 
Essa é uma das formas mais antigas de fabricação do voto útil. 
O eleitor de direita é convidado a concluir que Flávio não consegue derrotar Lula. Em seguida, surge a solução oferecida pela chapa do PSD: Ronaldo Caiado seria uma alternativa conservadora, menos rejeitada e teoricamente capaz de reunir forças de fora do bolsonarismo. 
Primeiro se decreta a morte política do adversário. Depois se apresenta o herdeiro. 
O enterro, evidentemente, é simbólico. E o cadáver ainda aparece com 40% nas pesquisas. 

O paradoxo do Centrão 


A segunda parte da narrativa de Kassab é ainda mais interessante. 
 Segundo ele, o Centrão está com Lula. A afirmação revela uma realidade conhecida: os partidos desse campo político costumam se orientar menos por fidelidade ideológica e mais pela preservação de espaços, alianças estaduais, recursos e influência sobre o governo. 
Nesse ponto, Kassab provavelmente conhece o terreno como poucos. 
 O presidente do PSD afirma que diversas lideranças do Centrão preferem Lula porque consideram Flávio frágil, isolado e incapaz de construir uma coalizão nacional suficientemente ampla. 
Mas a declaração carrega uma contradição. 
Se o Centrão está com Lula e Flávio é inviável, onde estão os partidos dispostos a transformar Caiado na alternativa competitiva anunciada por Kassab? 
A chapa de Caiado e Kassab é formada integralmente pelo PSD. Tentativas anteriores de atrair outras forças não produziram uma coalizão nacional robusta. O próprio partido apresenta divisões regionais: enquanto lança candidatura própria à Presidência, algumas de suas lideranças estaduais apoiam Lula. 
A candidatura se apresenta como alternativa à polarização, mas parte de sua estrutura convive perfeitamente com um dos polos. 
Na política brasileira, coerência nacional costuma perder para conveniência estadual. A ideologia faz o discurso. O palanque local fecha a conta. 

Lula também se beneficia 


Ao declarar que Flávio não tem chances, Kassab tenta fortalecer Caiado. Mas também entrega uma vantagem narrativa a Lula. 
Para o presidente, interessa consolidar a percepção de isolamento político do adversário. Quanto mais dirigentes partidários tratarem Flávio como candidato inviável, maior será a possibilidade de Lula apresentar sua aliança como ampla, moderada e capaz de reunir forças além da esquerda. 
A narrativa lulista passa a ser a da frente política responsável diante de um adversário radical e isolado. 
Curiosamente, a chapa de Caiado precisa enfraquecer Flávio sem fortalecer Lula em excesso. Precisa convencer o eleitor de que o candidato do PL perderá para o presidente, mas também de que o atual presidente pode ser derrotado — desde que o adversário seja Caiado. 
É uma operação delicada. 
Kassab precisa demolir uma candidatura que aparece com 31% para promover outra que permanece muito abaixo dos líderes. Precisa transformar força eleitoral em fragilidade e fragilidade eleitoral em promessa de crescimento. 
Política é também a arte de reorganizar adjetivos. 

 A resposta de Flávio: a luta contra o sistema 


 Flávio Bolsonaro respondeu afirmando que sua candidatura busca libertar o Brasil do domínio do PT e que sua participação na disputa não se resume à busca pelo poder. 
A reação segue uma estratégia previsível, mas eficiente. 
Em vez de discutir a dificuldade de construir alianças ou responder ao isolamento apontado por Kassab, Flávio desloca o conflito para o campo moral. Sua candidatura deixaria de ser apenas uma opção eleitoral e passaria a representar uma missão contra o sistema político. 
Dessa maneira, o abandono de partidos do Centrão pode ser convertido em prova de autenticidade. 
 Se os partidos tradicionais se afastam, isso não significaria fraqueza. Significaria independência. Se Kassab o ataca, não seria porque deseja favorecer Caiado, mas porque Flávio ameaçaria os interesses da política convencional. 
O isolamento deixa de ser problema e vira virtude. 
 É uma inversão narrativa clássica: aquilo que o adversário apresenta como incapacidade de articulação é reinterpretado como resistência ao sistema. 

A campanha pela percepção 


 Kassab quer convencer o eleitor de que Flávio não pode vencer. Flávio quer convencer seus apoiadores de que os políticos tradicionais tentam impedir sua vitória. Lula pode usar os dois movimentos para aparecer como candidato capaz de reunir a maior coalizão. 
Cada personagem conta uma história diferente sobre o mesmo tabuleiro: 
 * Para Kassab, Flávio é uma candidatura condenada e Caiado representa a alternativa racional. 
* Para Flávio, o afastamento dos partidos tradicionais comprova que sua candidatura enfrenta o sistema. 
* Para Lula, a aproximação de forças de centro pode representar a formação de uma aliança ampla em defesa da estabilidade. 
Nenhuma dessas narrativas é inteiramente inventada. Todas partem de fragmentos reais. 
Flávio possui rejeição elevada e dificuldades de articulação. O Centrão realmente mantém canais e alianças com Lula. Caiado tenta ocupar o espaço do eleitor de direita que não deseja votar no bolsonarismo. E Lula trabalha para ampliar sua sustentação além da esquerda. 
A manipulação narrativa raramente precisa fabricar tudo. Seu método mais eficiente é selecionar uma parte da realidade, ampliar seu significado e esconder aquilo que atrapalha a conclusão desejada. 

Profecias podem tentar produzir o futuro 


Há uma razão para políticos experientes declararem que determinado candidato “não tem chance”. 
 A repetição dessa ideia pode reduzir doações, afastar aliados, desmobilizar militantes e estimular o voto útil. A profecia, portanto, não precisa estar correta quando é pronunciada. Ela tenta criar as condições para se tornar verdadeira. 
Esse é o ponto central. 
Kassab não está apenas prevendo a derrota de Flávio Bolsonaro. Está trabalhando politicamente para produzi-la. 
Isso não torna sua avaliação necessariamente errada. Flávio pode perder força durante a campanha. Pode não conseguir ampliar alianças. Pode ser derrotado no primeiro ou no segundo turno. 
Mas também pode crescer. 
O que os números disponíveis não permitem é tratar sua derrota como uma certeza matemática. Quando a pesquisa mostra disputa competitiva e um adversário declara “chance zero”, já não estamos apenas no território da análise. 
Estamos no território da persuasão. 

A urna não reconhece decretos 


A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo, 16 de agosto. A partir de agora, candidatos e partidos tentarão ocupar não apenas as ruas, as telas e os palanques, mas principalmente a imaginação do eleitor. 
Uns venderão esperança. Outros, medo. Alguns prometerão mudança. Outros pedirão proteção contra a mudança anunciada pelos adversários. 
Kassab iniciou essa disputa tentando definir quem é viável e quem deve ser descartado. 
É legítimo. Faz parte da política. 
Cabe ao eleitor, porém, compreender que declarações desse tipo não são neutras. Elas não chegam do alto de uma montanha, pronunciadas por um sábio alheio à batalha. São produzidas dentro da trincheira por alguém diretamente interessado no resultado. 
Kassab pode acertar sua previsão. 
Mas, neste momento, sua frase diz menos sobre o futuro de Flávio Bolsonaro do que sobre a necessidade de Ronaldo Caiado encontrar espaço no presente. A política adora profetas. A urna, felizmente, não reconhece decretos. 
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 Fontes consultadas:


Declarações de Kassab sobre Flávio Bolsonaro e o Centrão >>> (https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-caiado-centrao-flavio-lula.ghtm); 
Reação de Flávio e reafirmação da narrativa de Caiado e Kassab >>> (https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.ghtm) 
Pesquisa Quaest com os cenários de primeiro e segundo turnos >>> (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/quaest-lula-tem-43-e-flavio-bolsonaro-40-em-cenario-de-segundo-turno.shtml); 
Contexto da formação da chapa Caiado–Kassab >>> (https://www1.folha.uol.com.br/amp/poder/2026/07/caiado-anuncia-kassab-como-vice-e-diz-que-flavio-perderia-para-lula-no-2o-turno.shtml).

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