Narrativas Eleitorais
Renan Santos e a fabricação do outsider: a radicalidade como método eleitoral
Candidato do Missão tenta ocupar o espaço deixado pela polarização com uma linguagem de ruptura, propostas ambiciosas e frases calculadas para incendiar as redes. O desafio será demonstrar que a coragem de provocar corresponde à capacidade de governar.

Renan Santos não pede licença para entrar na disputa presidencial. Arromba a porta, insulta os ocupantes da sala e anuncia que pretende reformar o edifício inteiro.
É assim que o candidato do Missão procura se apresentar ao eleitor brasileiro: como alguém que não pertence ao sistema, não teme seus personagens e não está submetido às regras silenciosas que organizam o jogo político nacional.
Ele chama integrantes do Centrão de “parasitas”, trata adversários com adjetivos ofensivos, promete um “governo revolucionário”, apresenta o Palácio do Planalto como futura startup e resume sua política de segurança pública numa frase concebida para produzir choque: “prendeu, matou”.
Não se trata apenas de espontaneidade ou destempero. Há método na agressividade.
Renan compreende que uma candidatura situada muito abaixo dos dois líderes das pesquisas precisa disputar algo anterior ao voto: o direito de ser vista. Antes de convencer, precisa interromper. Antes de explicar suas propostas, precisa conquistar a atenção de um eleitorado bombardeado diariamente por discursos, vídeos, slogans e indignações.
Nesse ambiente, a moderação raramente viraliza.
Renan decidiu não ser moderado.
Sua aposta consiste em transformar a radicalidade verbal em certificado de autenticidade. Se todos os políticos parecem calculados, ele quer parecer imprevisível. Se os candidatos tradicionais falam por meio de frases testadas, ele oferece o risco permanente da próxima declaração. Se o sistema é apresentado como uma máquina de fabricar acordos, Renan vende a imagem daquele que entrou na fábrica disposto a quebrar as engrenagens.
Mas há uma contradição central nessa narrativa: o candidato que se apresenta como outsider conhece a política brasileira por dentro, ajudou a moldar parte de sua história recente e já admite que precisará negociar com os mesmos grupos que condena.
Renan não é exatamente um estranho diante dos portões do poder.
É um personagem formado na longa guerra pela narrativa política brasileira.
Um outsider produzido dentro da política
Renan Santos nunca exerceu cargo eletivo. Essa ausência constitui o principal fundamento objetivo de sua condição de outsider.
Ele não foi prefeito, governador, deputado, senador ou ministro. Não carrega no currículo a administração de uma cidade, de um Estado ou de uma estrutura nacional. Pode, portanto, afirmar que não participou diretamente dos governos que critica nem dos grandes arranjos partidários que denuncia.
Mas isso não significa que esteja chegando agora à política.
Renan foi um dos articuladores do Movimento Brasil Livre, participou das mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff, ajudou a organizar campanhas, projetou lideranças, influenciou mandatos parlamentares e comandou o processo de transformação de um movimento político em partido registrado.
O Missão não nasceu espontaneamente nas margens do sistema. Foi construído para entrar nele.
Por isso, Renan representa um tipo particular de outsider: não o aventureiro que apareceu repentinamente com dinheiro, fama ou milhões de seguidores, mas o operador político sem mandato que decidiu assumir o protagonismo eleitoral.
Ele está fora dos cargos, mas não fora da política.
Essa diferença importa.
A narrativa do outsider permite que Renan reivindique a pureza de quem nunca governou. Ao mesmo tempo, sua trajetória no MBL lhe oferece experiência em mobilização digital, formação de militância, ocupação do debate público e fabricação de antagonistas.
Ele conhece o palco, os bastidores, a iluminação e o poder de um bom corte para as redes sociais.
O que ainda não conhece é o peso da cadeira para a qual se candidata.
A campanha em duas vozes
Renan Santos parece possuir duas vozes políticas.
A primeira é a voz do militante. Ela provoca, insulta, simplifica e procura produzir uma divisão moral entre os que teriam coragem e os que seriam cúmplices da decadência nacional.
A segunda é a voz do presidenciável. Ela surge quando o candidato é confrontado com as implicações jurídicas, econômicas ou institucionais daquilo que acabou de dizer.
A primeira voz acende o incêndio.
A segunda aparece com o manual do Corpo de Bombeiros.
Foi o que ocorreu com a expressão “prendeu, matou”. No lançamento de sua candidatura, Renan prometeu endurecimento máximo contra o crime e pronunciou frases cuja leitura mais imediata sugeria a eliminação física de criminosos.
Questionado posteriormente, explicou que não estava propondo uma política de execuções. Disse que a frase representava uma disposição de enfrentar organizações criminosas, prender seus integrantes ou neutralizá-los em situações de confronto.
O material programático do Missão também procura retirar do slogan seu sentido literal. O partido afirma que “prendeu, matou” não significa prender e executar criminosos, mas tratar integrantes permanentes de organizações criminosas como inimigos do Estado, dentro de uma interpretação baseada no controverso Direito Penal do Inimigo.
A explicação é mais complexa do que a frase. Mas foi a frase que viajou.
Esse é o mecanismo.
A formulação extrema conquista atenção, produz indignação e mobiliza apoiadores. Depois, uma camada de explicação técnica tenta enquadrá-la dentro dos limites institucionais.
É uma radicalidade com nota de rodapé.
O mesmo padrão apareceu quando Renan declarou ser “machista” e, confrontado, afirmou que se tratava de uma provocação relacionada à defesa daquilo que chama de “boa autoridade masculina” nas famílias.
A palavra produz o choque. A explicação posterior reivindica o contexto.
Na comunicação política digital, essa operação pode ser eficiente. Quem concorda compartilha a frase. Quem se revolta também. Enquanto os dois lados discutem o significado, o candidato ocupa o centro da conversa.
O problema começa quando o personagem precisa demonstrar onde termina a provocação e começa o programa de governo.
O antissistema que conhece a fábrica
Uma das declarações mais reveladoras de Renan Santos foi dada quando ele precisou explicar como aprovaria suas propostas no Congresso Nacional.
O candidato já chamou integrantes do Centrão de “parasitas”. Mesmo assim, reconheceu que, se eleito, terá de conversar, negociar e compor com os parlamentares.
Renan afirmou aceitar a classificação de antissistema porque não participa do “grande jogo e seus vícios”, embora conheça o funcionamento da “fábrica de salsichas” que seria o Congresso.
A frase é extraordinariamente honesta.
Ela revela que sua narrativa não consiste em negar a existência do sistema, mas em estabelecer uma distinção moral entre duas formas de operá-lo. Haveria a negociação republicana, que ele aceitaria, e a negociação corrompida, que atribui aos adversários.
Essa fronteira, contudo, nunca é tão nítida na prática quanto parece no discurso.
Governar o Brasil exige formar maiorias num Congresso fragmentado, distribuir responsabilidades, aceitar alterações nos projetos, negociar prioridades orçamentárias e conviver com partidos que possuem interesses regionais, eleitorais e econômicos próprios.
Renan diz que exigiria das legendas um compromisso formal com determinadas políticas públicas para que participassem do governo. É uma tentativa de apresentar a coalizão como contrato programático, e não como loteamento do poder.
A ideia é defensável.
A questão é saber o que acontecerá quando os votos necessários para aprovar uma reforma não estiverem disponíveis dentro dos “parâmetros claros” definidos pelo presidente.
O militante poderá continuar chamando os congressistas de parasitas.
O presidente terá de contar votos.
Um programa que não cabe numa etiqueta
As propostas associadas a Renan e ao Livro Amarelo, documento programático do Missão, também procuram romper com classificações tradicionais.
O projeto conversa com o liberalismo econômico, mas não se limita a ele. Defende forte ajuste fiscal, redução de despesas obrigatórias, mudanças na Previdência, desindexação do Benefício de Prestação Continuada e das aposentadorias em relação ao salário mínimo, além da revisão de vinculações orçamentárias para saúde e educação.
Ao mesmo tempo, reserva ao Estado um papel decisivo na industrialização, na infraestrutura, na segurança, na exploração de recursos estratégicos e no planejamento do desenvolvimento nacional.
É um programa que pretende reduzir determinadas dimensões do Estado para ampliar outras.
A economia obtida com o ajuste fiscal seria convertida em investimentos. Entre eles, a construção de 300 mil a 500 mil vagas no sistema prisional.
Questionado sobre o custo dessa expansão, Renan admitiu que não possuía uma estimativa naquele momento. Sabia quantas vagas pretendia construir, mas ainda não sabia quanto seria necessário gastar.
A resposta expõe uma fragilidade recorrente em programas que começam com grandes gestos: a distância entre a escala da promessa e a engenharia de sua execução.
Na reorganização administrativa, o Missão propõe uma redução radical do número de municípios brasileiros, dos atuais 5.570 para aproximadamente 1.656. Municípios considerados incapazes de sustentar sua própria estrutura seriam fundidos, embora o partido assegure que as identidades culturais seriam preservadas por meio de distritos ou subprefeituras.
A proposta toca numa ferida real. Muitos municípios dependem quase integralmente de transferências federais e mantêm estruturas administrativas caras diante daquilo que arrecadam.
Mas a solução encontraria resistência monumental.
Municípios não são apenas unidades contábeis. São espaços de identidade, poder, emprego público, representação política e controle territorial. Fundi-los significaria enfrentar prefeitos, vereadores, deputados, governadores e comunidades que não aceitarão desaparecer porque uma planilha concluiu que são economicamente inviáveis.
O programa também promete substituir o Bolsa Família, para beneficiários em idade economicamente ativa, por “Frentes Cidadãs”: atividades remuneradas em projetos de interesse público, apresentadas como caminho para a inserção produtiva.
Novamente, a narrativa é poderosa. Em lugar da dependência, trabalho. Em lugar da transferência, produtividade. Em lugar do beneficiário passivo, o cidadão participante.
Mas o slogan não resolve as perguntas essenciais.
Quem organizará essas frentes? Quais atividades serão realizadas? Quanto custarão? Como evitar precarização, clientelismo municipal ou a substituição de empregos formais por mão de obra vinculada ao benefício?
Entre a intenção e o Estado existe uma floresta de detalhes.
É nela que as grandes ideias costumam se perder.
O Planalto como startup
Renan também afirmou que transformaria o Palácio do Planalto numa espécie de startup. Trabalharia em grandes mesas com ministros e auxiliares, acompanhando diretamente os projetos. Kim Kataguiri seria uma espécie de “superministro” responsável por reunir áreas como Trabalho, Previdência, Planejamento e Cidades.
A imagem é sedutora.
A startup representa velocidade, inovação, ausência de burocracia, horizontalidade e disposição para experimentar. O Planalto, ao contrário, simboliza solenidade, hierarquia, lentidão e distância.
Ao juntar os dois mundos, Renan produz uma metáfora visualmente eficiente: o governo finalmente funcionaria com o ritmo de uma empresa de tecnologia.
Mas um país não é uma startup.
Uma startup pode mudar de estratégia, abandonar um produto, demitir equipes, consumir o capital dos investidores ou simplesmente encerrar as atividades. O Estado não dispõe dessa liberdade. Ele administra direitos, vidas, territórios, conflitos federativos e recursos que pertencem à sociedade.
O presidente não é fundador do Brasil. A Constituição não é um plano de negócios. O cidadão não é usuário de aplicativo — e muito menos cliente dispensável.
A linguagem empresarial pode ajudar a comunicar eficiência. Torna-se perigosa quando oculta a complexidade democrática sob a fantasia de que todos os problemas serão resolvidos reunindo pessoas inteligentes ao redor de uma grande mesa.
Governar exige mais do que agilidade.
Exige limites.
A sedução da força
A segurança pública ocupa posição central na candidatura de Renan.
Ele admira a capacidade de ação do governo de Nayib Bukele, em El Salvador, mas afirma que não pretende importar medidas como prisões sem mandado, detenções baseadas apenas em denúncias ou julgamentos coletivos.
“Eu não sou o Bukele”, declarou.
A ressalva é importante. Ainda assim, é a estética de Bukele — o governante que decide, enfrenta e resolve — que dá força simbólica ao discurso.
Renan promete recuperar territórios controlados por facções, ampliar o sistema penitenciário, restringir benefícios a condenados por crimes hediondos e empregar instrumentos excepcionais, como o estado de defesa, em áreas determinadas.
O problema não está em reconhecer a dimensão do crime organizado. A expansão territorial das facções é um dos maiores desafios do Estado brasileiro.
O problema está em vender força como se ela dispensasse precisão.
Quanto mais poderoso o Estado se torna para combater seus inimigos, mais claras precisam ser as regras que definem quem são esses inimigos, quais garantias permanecem preservadas e quem fiscalizará os agentes autorizados a usar a violência.
A frase curta exige um Estado forte.
A democracia exige que esse Estado também seja controlado.
Quando a provocação encontra consequências
Em 18 de agosto, tornou-se pública uma ação civil apresentada pelo Ministério Público Federal contra o candidato e o MBL. O MPF acusa ambos de discurso de ódio e discriminação contra povos indígenas do Baixo Tapajós, no Pará, em vídeos publicados ao longo de 2026.
Segundo o órgão, Renan utilizou expressões pejorativas, questionou a identidade étnica dos manifestantes e ironizou sua aparência. O Ministério Público pede a remoção dos vídeos, indenização por danos morais coletivos, retratação pública e a proibição de novas publicações ofensivas.
Trata-se de uma acusação apresentada pelo MPF, ainda sujeita à apreciação da Justiça. Até a publicação da reportagem que revelou o caso, a assessoria de Renan não havia apresentado resposta.
O episódio não deve ser usado para antecipar uma condenação.
Mas ajuda a demonstrar que a política da provocação possui consequências.
Quando um candidato constrói sua identidade na fronteira entre a irreverência e a agressão, precisa responder não apenas pelo sentido que atribui às próprias palavras, mas também pelo impacto que elas produzem.
A explicação posterior nem sempre apaga a violência anterior.
Algumas frases continuam caminhando depois que seu autor tenta recolhê-las.
A eleição contra todos
Renan rejeita o rótulo de terceira via. Faz sentido.
A terceira via tradicional procura ocupar o centro entre dois extremos. Renan não deseja ser o ponto intermediário entre o lulismo e o bolsonarismo. Pretende apresentar ambos como partes diferentes do mesmo fracasso.
Sua estratégia não é conciliar os polos.
É desalojá-los.
Lula representa, em sua narrativa, o passado estatista, a dependência social e uma esquerda envelhecida. O bolsonarismo representa uma direita incapaz, familiar, corrompida e subordinada aos mesmos mecanismos que afirma combater.
Renan quer convencer o eleitor de direita de que Flávio Bolsonaro não consegue derrotar Lula e convencer o eleitor descontente com o PT de que os governadores apresentados como alternativas ainda orbitam o bolsonarismo.
Ele não pede ao eleitor que abandone suas indignações.
Pede que troque de porta-voz.
Por isso, sua campanha precisa manter permanentemente a temperatura elevada. A normalização seria fatal para um candidato que depende da ruptura para justificar sua existência.
Renan não disputa apenas contra adversários.
Disputa contra a possibilidade de parecer comum.
O teste da realidade
A candidatura de Renan Santos possui méritos que não devem ser ignorados.
O Missão produziu um programa extenso, apresentou diagnósticos, colocou propostas controversas em debate e tenta ocupar um espaço que partidos mais antigos abandonaram: o da elaboração de um projeto abrangente de país.
Há ideias que merecem discussão séria, especialmente sobre equilíbrio fiscal, infraestrutura, recuperação de territórios dominados pelo crime, produtividade, reorganização federativa e exploração estratégica das terras raras.
O problema é que a ambição programática convive com uma comunicação que frequentemente reduz questões complexas a expressões brutais.
A candidatura parece acreditar que poderá desfrutar simultaneamente dos benefícios da radicalidade e da segurança da moderação posterior.
Talvez consiga durante a campanha.
No governo, seria diferente.
Presidentes não possuem o privilégio permanente da provocação. Suas palavras movem mercados, orientam forças policiais, influenciam instituições e produzem consequências diplomáticas e sociais.
Um militante pode apagar uma postagem.
Um presidente não apaga facilmente uma crise.
Renan Santos quer convencer o Brasil de que somente alguém disposto a dizer o que os outros não dizem será capaz de fazer o que os outros não fizeram.
Essa é uma narrativa forte porque transforma imprudência em coragem, isolamento em independência e agressividade em sinceridade.
Mas a verdadeira prova de uma candidatura presidencial não está na capacidade de incendiar o debate. Está na capacidade de governar depois que as câmeras se afastam, os slogans perdem força e cada promessa encontra a resistência concreta da realidade.
Renan construiu um personagem preparado para a batalha eleitoral.
Agora precisa demonstrar que existe um presidente possível atrás do outsider.
Porque governar não é prolongar uma provocação.
É responder pelas consequências dela.
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